Lembranças

Há lembranças que eu gostaria de mergulhar em um mar profundo, onde jamais poderia alcançá-las. Apagar definitivamente dos meus pensamentos. Ou então lançá-las em um abismo, infinitamente profundo. Porém, o ato de lembrar é involuntário. Subitamente, acontece. Hoje é um desses dias em que não consigo domar minhas recordações. Simplesmente vejo, em minha mente, seus cabelos grisalhos, seu sorriso, a forma em que me acariciava, seu corpo pequeno, seus olhos verdes acinzentados e até consigo sentir o gosto do seu macarrão com molho de carne moída. Mas recordo, também, das cenas tristes que assisti, que infelizmente, ela era a protagonista.

Visitá-la no hospital me machucou, e ainda me machuca. Segurá-la no colo, com os seus trinta e poucos quilos. Ela, que já era magra, parecia estar sumindo aos poucos. O câncer estava vencendo a guerra e ela definhava. Seus pulsos estavam marcados pelas ataduras que os médicos foram obrigados à amarrar, para que ela não se autoflagelasse. Delirava. São lembranças que voltam, e doem. Em maio, completa mais um ano que ela não está entre nós. Quatro anos sem mergulhar naquele olhar e sentir suas mãos em meus cabelos. Apesar da pouca frequência em que nos víamos, eu a amava, muito. Sofri tanto!

Não sei o por quê escrevo isto. Talvez seja apenas um desabafo, enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Mas lembrar faz bem, significa que estou vivo. Lembrar fortalece e alivia as dores da alma.

Sinto sua falta, vó.

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2 Comentários »

  1. carinaeguia Said:

    A ausência dói. E essa tristeza repentina talvez não se esvaie para sempre nunca, mas muda. Melhora um pouco. E talvez uma maneira de domar essas memórias seja se esforçar para lembrar-se, quando elas surgirem, de coisas boas que vocês viveram juntos. Vai doer, também. Vai fazê-lo chorar. Mas, você vai ver, a sensação será muito diferente de quando você se recorda do finzinho da vida dela, em que a fragilidade imperava soberana…

  2. carou123 Said:

    Triste.

    Se você descobrir como apagar algumas lembranças, mesmo se achar melhor manter todas as suas, me avise – eu apagaria um punhado das minhas. E elas não me obedecem, voltam e voltam.

    Bonito o texto, Fê.


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