Jesus deixaria!

Era sexta-feira, por volta das 22h30. Julia e Ana caminhavam na Augusta ladeira abaixo. Após comerem um lanche qualquer no McDonald’s da Paulista, as duas procuravam o lugar em que se divertiriam durante o resto da noite. Ao contrário da minoria que estereotipa a avenida, as duas estavam comportadamente vestidas. Calças jeans, sandálias  de salto e regatas – de Julia, Branca, de Ana, vermelha – e belos colares monocromáticos, que não lhe custaram mais do que R$20,00, juntos.

Dificilmente, as duas se acariciavam ou se beijavam nas ruas. Não por vergonha, sim por acreditarem que as pessoas ainda não estão preparadas (quem sabe estarão um dia?) para tanto. Porém, o ambiente lhes dava a liberdade de caminharem, pelo menos, de mãos dadas. Julia virou-se para companheira com aquele olhar de gato pedinte – imortalizado em Shrek. “O que você quer?”, perguntou Ana, com um tom carinhoso. “Preciso ir ao banheiro”, respondeu. Olharam ao redor e não encontraram nenhum lugar em que o uso do toilet não seria cobrado. “Veja”, disse Julia apontando para alguns metros à frente. “Vamos ali na igreja. Estou muito apertada”. Por respeito, soltaram as mãos. O homem que as recepcionou na porta usava um crachá que lhe rendia o epíteto “diácunum”, ou algo parecido. “Moço, podemos usar o banheiro?”, questionou Ana. Ele as mediu, do frizz de cabelo mais alto ao fim do salto. “Não. É só para quem tá no ‘curto'”, respondeu – grosseiramente, por sinal. Indignada, Ana não hesitou e soltou a frase: “Puxa! Jesus deixaria”. Como resposta, o “diácunum” levantou os ombros, inclinou a cabeça e virou-se, dando-lhe-as as costas.

Elas lembraram do episódio durante toda noite. Curiosas, ao adentrarem em casa, pela manhã, abandonaram bolsas e celulares no sofá e se dirigiram ao computador. Lançaram a palavra “diácunum” na Internet. Inteligentemente, o Google perguntou: “Você quis dizer: diácono?”. Apesar do singular “você”, era exatamente esse o termo que procuravam. O resultado foi encontrado na primeira página sugerida, a Wikipédia. “Um diácono (do grego antigo διάκονος, ministro, ajudante) são os ajudantes dos líderes de uma igreja particular local, e por sua vez, aspirantes a futuros líderes.”

A religião sempre esteve presente na infância de Ana. Sua mãe era a responsável em abrir e fechar a pequena igreja do bairro, que tinha nome de assembleia, mas de Belém. Ela lembra de pouquíssimas passagens bíblicas. Entretanto, uma era sempre citada pela mãe. “(…) Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas.” É aquela velha história, Deus ama a todos, igualmente. “Mas por que apenas alguns podem usar o banheiro da igreja”, questionaram. “Vai saber! Nem as garotas de programas fazem segregação de clientes”, observou Ana.

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3 Comentários »

  1. carou123 Said:

    Fê, me sinto homenageada, mas também aliviada. O texto é perfeito, não só por descrever muito da situação – de uma maneira que eu pensei que não seria possível por você não estar lá. Mas porque seu texto me faz pensar no quanto é ignorante colocar todas as pessoas religiosas em um mesmo “saco” e ceder à tentação do preconceito.

    Se alguns têm preconceito e se sente “donos” das palavras e atitudes de Deus, outros não, como você =)

    Valeu, Fê.

    Beijo.

    Carol

    PS. Está escrevendo cada vez melhor. Sério.

  2. Irene Said:

    Achei muito legal a história abordando o preconceito que ainda – infelizmente – temos no século.

    PS: pq vc não apresenta a Julia e a Ana pra Carol, hein? ;D

    hahaha

  3. Nivia Said:

    Jesus deixaria é a melhor resposta que pode-se dar a alguém que se julga melhor que todos, apenas por estar ocupando um “lugar”.
    Jesus deixaria!


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