Vida sobre rodas

Morguefile

Segunda-feira, 5h. É cedo, mas Victor não tem escolha. Ele trabalha no centro de São Paulo, e por morar no leste da capital, precisa madrugar para chegar ao emprego às 8h. O caminho até o trabalho é longo e estressante. A rotina, que pode parecer igual a de muitos outros trabalhadores, para ele é muito mais árdua. Victor é cadeirante. Aos 15 anos, conversava com colegas, quando policiais enquadraram a roda de amigos. Instintivamente, ele tentou pegar o documento, guardado no bolso frontal da calça. Com medo de que o garoto estivesse armado, um policial disparou. Uma falha, um tiro, diversas consequências. A bala atingiu a coluna do jovem, que perdeu os movimentos da parte inferior do corpo. O que era apenas uma conversa entre amigos de infância, se tornou em uma tragédia. Porém, com o tempo e apoio de muitos, Victor superou o acidente. Hoje, trabalha em uma “empresa importante”, como o mesmo define.

A primeira barreira, são as ruas. Despreparadas para acolher cadeirantes, as vias paulistanas são esburacadas e perigosas. As calçadas então, estão fora de questão, são desniveladas, abrigam diversos degraus e, em geral, não possuem rebaixamentos nos cruzamentos. A solução é dividir as ruas, alamedas, avenidas, vielas, e porquê não estradas, com os automóveis. Um risco. A odisseia de Victor está apenas no começo. O transporte público é outra problemática. Para chegar na “empresa importante”, Victor utiliza ônibus e metrô. No ponto, aguarda por 23 minutos –e alguns segundos eternos–, o ônibus adaptado. O cobrador desce, abaixa a rampa e o auxilia à subir no coletivo. Ajuda recebida com alívio, já que seus braços doem, devido o esforço necessário para empurrar as barras circulares anexadas às rodas da cadeira. Victor não tem condições financeiras para comprar uma cadeira motorizada, em que o único movimento necessário seria realizado pelas mãos. Voltando ao ônibus –lotado, como sempre–, o jovem ainda é obrigado a suportar olhadelas daqueles que utilizam o espaço reservado. “Licença”, diz, sorrindo. Ele se ajusta no espaço, veste-se com o cinto de segurança e aproveita o tempo para ler. Está na página 200, capítulo 32, de A Cidade do Sol, do Khaled Hosseini –aquele afegão que escreveu O Caçador de Pipas. São 30 minutos dedicados à história protagonizada por Mariam e Laila. “Com a leitura, o tempo passa mais rápido”, acredita. Na hora de descer, a ajuda é novamente bem-vinda. O ônibus para na estação, o que é bom. Porém, a rampa de acesso é o que mais lhe preocupa. O esforço físico novamente é o combustível. Transeuntes observam o suor escorrer pelo rosto do rapaz. Um homem –de boné e uniforme da Gaviões da Fiel–, provavelmente com a mesma idade de Victor, oferece sua força jovial e o empurra até a catraca. “Ufa, valeu, irmão!”, é o que consegue proferir como agradecimento. Na estação, um jovem aprendiz, aparentemente com sono, surge para ajudá-lo. “Bom dia, ‘negão'” –se tratam pelos apelidos, pois mesmo com o pequeno espaço de tempo em que convivem diariamente, já se consideram amigos. O trem estaciona na plataforma. Pelas janelas, é possível observar os usuários se contorcendo em busca de espaço. Victor tem que esperar o próximo. Enquanto isso, incentiva o jovem à entrar numa faculdade –sonho que ele deseja realizar em breve. Após cinco trens, Victor embarca, não com conforto. Fica na porta, o que atrapalha o embarque e desembarque de passageiros. Entre uma estação e outra, precisa descer do vagão, para abrir espaço. Finalmente, Victor chega na estação-destino. Outro jovem aprendiz, esse desconhecido, o auxilia até a saída. Dali para a “empresa importante”, ele gasta cinco minutinhos. No prédio, é conhecido e querido por todos. No elevador, aperta o botão 7.
Fim de tarde, e Victor se prepara para ir embora. O caminho é o mesmo, mas inverso, metrô-ônibus-rua. Entretanto, acontece um imprevisto. Poucos metros de casa, o jovem não percebe uma pedra no meio do caminho. O que poderia ser apenas uma alusão ao poema de Drummond, se transformou numa queda. Victor rala as mãos, utilizadas para se proteger do tombo. Rapidamente, pessoas o ajudam. “Obrigado, gente. Estou bem”, agradece, observando o corte em sua palma direita. Em casa, limpa o ferimento, consome o jantar preparado pela mãe, assiste uma ardente cena de Insensato Coração, protagonizada por Deborah Secco, e dorme.
O dia acabou, Victor se prepara para o amanhã, que provavelmente não será muito diferente de hoje –talvez sem a queda, mas com os mesmos obstáculos.

(Ps.: essa história é fictícia, porém não muito diferente da de Victors reais que vivem em centros urbanos brasileiros, despreparados para recebê-los)

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3 Comentários »

  1. Carina Eguia Said:

    Gostei muito de seu texto. Bastante realista e comovente…

  2. Carol Said:

    Bonito, mas também angustiante. Eu, que não preciso da tal cadeira de rodas, me senti mal em pensar no dia seguinte dele. Ou melhor, de todos eles.


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