Sobre trilhos

Me considero um apaixonado por trens. Talvez isso se deve ao fato de sempre ter morado ao lado dos trilhos que ligam o Alto Tietê e bairros da zona leste (São Miguel, Itaim, Ermelino…) ao centro da desvairada capital de São Paulo. Lembro da minha empolgação na infância quando precisávamos ir à “cidade” – assim, até parece que moro no interior, mas é o hábito – para resolver alguma coisa ou fazer compras, principalmente as de fim de ano, no Brás. Não sei o motivo, mas me sentia extasiado em poder, digamos, “viajar” naquela máquina movida à eletricidade. Nada melhor do que observar o movimento disforme, resultado da velocidade,  da paisagem dos bairros distantes de São Paulo. A antiga Linha F sempre foi conhecida por todos. Não por ser exemplo, claro, mas pela superlotação, consumo de drogas, arrastões, comércio ambulante ilegal, buracos no chão dos vagões… A apreensão sempre foi companheira fiel dos usuários durante o percurso. Entretanto, eu era apenas criança, que não enxergava, e nem podia, as mazelas do transporte metropolitano. O que importava para mim era o vento batendo no meu rosto e a vista enquadrada pela moldura das janelas. Anseio de todo pivete! Talvez, essa paixão ferroviária também seja efeito das guloseimas que meu pai trazia ao voltar do trabalho – todas comercializadas sobre trilhos.

Na universidade, esse amor pelos trens intensificou-se. Tudo graças a Paranapiacaba, a vila inglesa de São Paulo – apelido romântico que uso quando me refiro ao lugar. Durante um passeio com os colegas de classe (na realidade, amigos. Não sei o por quê que tenho essa obstinação em diferenciar os dois termos), para cumprir o horário de atividades complementares. Foi amor à primeira vista. E que vista! Da parte alta da vila, você aprecia a contradição da parte inglesa, detalhadamente planejada, com a portuguesa, o oposto – digo isso sem preconceito aos nossos colonizadores, é uma constatação. Só de imaginar que a vila se desenvolveu às margem dos trilhos, me emociono. O antigo casarão do engenheiro-chefe da São Paulo Railway, as carcaças dos trens que um dia percorreram as irregulares curvas da serra do mar,  o Museu Funicular e o característico nevoeiro, que me remete a capítulos de um livro de suspense inglês. Paranapiacaba é um lugar singular.

Ainda têm as antigas estações tombadas como patrimônio artístico nacional pelos órgãos competentes. Se há algo que me atrai são essas construções antigas, como a estação da Luz e Julio Prestes, além das igrejinhas e capelas católicas – assunto para um outro post. Tudo isso colaborou, e muito, na minha paixão pela ferrovia.

Se existe um período do meu dia em que reservo só para mim, é quando estou no trem. Nele encontro meus minutos de paz, reflexão, leitura, estudo e dedico tempo para ouvir uma boa música. Há lugar melhor do que no trem para ler um bom livro? Claro que isso depende da capacidade de concentração de cada um, mas para mim não há. Quando não tem um indivíduo desrespeitoso que liga o mp3, ipod ou radinho de pilha na última altura, lógico! Enfim, observo pela janela os transeuntes levando consigo suas frustrações, sonhos, desejos… Não muito diferentes dos que estão no vagão, sentados, tanto nos bancos quanto no chão proibido, ou em pé apoiados nas paralelas barras de ferro. Pessoas que gastam grande parte do seu ânimo diário no percurso casa-trabalho-trabalho-casa.

Queria que essa visão romântica dos trilhos de São Paulo, e por que não dizer do Brasil, fosse dominante. Ao poucos, os trilhos que me alegram, estão tornando motivo de tristeza. Muito mudou! Trens novos, estações reformadas. Porém, a alma da ferrovia está, ao poucos, tornando-se cinzas. O sistema nos transformou em uma manada, guiada por uma voz robótica, que pouco diz. Uma espécie de berrante reproduzido por alto-falantes. Na última semana, fiquei cerca de uma hora aguardando a chegada do trem à plataforma. Nenhuma informação! Apenas “soavam” que “os trens estão circulando com velocidade reduzida”. A resposta só veio depois, quando pude observar alguns “bois” andando pela linha, oriundos de uma composição que provavelmente quebrou uma de suas cercas ou arrebentou um arame. O descaso aos trilhos, que em um passado recente ajudou a titular São Paulo como a terra das oportunidades, é lastimável. Muito é investido em tecnologia, porém pouco é gasto com os usuários. Talvez pela minha formação, credito à mal comunicação boa parte dos problemas que os trilhos têm vivido. Os usuários dificilmente são informados da verdadeira razão dos problemas. A gradativa robotização da comunicação nos trens está arruinando a antiga relação condutor-passageiro. Sinto falta de ouvir os sotaques, os erros de português e a entonação dos condutores. Modernização e avanços  tecnológicos não podem substituir o principal: o respeito e diálogo com os usuários.

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