O leitor

Foto: Felipe Godoy

Para um jornalista o feedback, ou seja, o retorno que ele tem do seu público, é fundamental. Para um estudante então, nem se fala. Por possuir características comunitária o Cidadão, jornal-laboratório dos estudantes de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul, tem como público-alvo as comunidades onde os campi da instituição estão inseridos. Por isso, o jornal de maio de 2009 tratou na matéria principal os 387 anos da Capela de São Miguel Arcanjo, importante patrimônio do bairro de São Miguel Paulista. Algum tempo após a publicação da edição, a equipe foi surpreendida com uma carta de 12 páginas datilografadas pelo aposentado Jesuíno Braga, antigo morador da região. Depois de receber um exemplar da publicação, ele descreveu aos estudantes seu interesse em pesquisar sobre o bairro e criticou alguns pontos mencionados na reportagem.

A relação de Jesuíno Braga com o bairro se resume em uma jornada de amor e revolta. Ele nasceu em São José do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo. Após a Revolução de 1930, chegou em São Miguel, com apenas quatro anos. Na época, seu tio, Paulo Braga, comprou uma draga para retirar areia do rio Tietê e enviar para o centro da capital paulista, que crescia com a industrialização. Para isso, precisou de ajuda dos familiares para cuidar dos negócios. Com o tempo, Jesuíno tornou-se um apaixonado defensor pelo bairro em que reside. Durante anos morou com a família atrás da capela, até ser desapropriado pela prefeitura. “Fiquei dez anos fora de São Miguel, mas não aguentei e voltei”, recorda. “Sou bairrista, então qualquer coisa que tem de errado por aí eu brigo e dou parte. Não faço amizade com político e nem puxo o saco de ninguém, mas tudo o que vejo de errado denuncio. Como cidadão acho que tenho direito”, completa. Foi esse bairrismo que o incentivou a escrever aos estudantes: “Apenas achei que o que escreveram não estava de acordo com o que aprendi.”

Braga pode ser considerado um historiador. Possui diversas pastas com recortes de jornais, cópias de livros, documentos e fotos que registram a história de São Miguel. Sua casa é antiga, provavelmente foi construída entre os anos 1950/60. Nas paredes, quadros com imagens da capela e no canto da sala uma peça esculpida de madeira do padroeiro São Miguel Arcanjo, feita por ele mesmo. São várias esculturas de madeira que decoram sua residência, todas produzidas por ele na pequena marcenaria que fica no fundo do quintal. Aliás, é neste espaço, que guarda a “sete chaves” uma pequena réplica da capela que fez em homenagem ao bairro. “Emprestei a maquete para um shopping expor e eles me devolveram toda quebrada”, lamenta. Na copa, uma imponente estante de madeira atrai a atenção. “Esse móvel era da minha professorinha. Quando ela morreu fiquei sabendo que seus familiares estavam vendendo tudo. Fui lá, mas já era tarde, só tinha sobrado isso”, explica.

Polêmico, Jesuíno já abriu diversos processos na Justiça contra os atuais responsáveis pela igreja dedicada ao arcanjo Miguel. Inclusive, utilizou a fotografia da capela publicada no jornal Cidadão em uma dessas ações judiciais. Em um dos processos conseguiu que fossem plantados pés de jacarandás no lugar dos que foram retirados da Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, devido reformas. Até o nome da praça já foi alvo de uma de suas ações. Revoltado com o uso da denominação Praça do Forró – apelido que o espaço recebeu em homenagem aos migrantes nordestinos que se reuniam no local – pelos perueiros da região, abriu um processo contra a prefeitura. “O nome da praça é de um religioso que dedicou 23 anos de sua vida à essa comunidade, não deve ser desrespeitado assim”, afirma.

Falar sobre a história de São Miguel Paulista não é nada complicado para Jesuíno Braga. Ele conta tudo com detalhes, sabe de cor datas e nomes de pessoas que ajudaram no desenvolvimento da região. Ressalta com alegria a força e coragem dos índios guaianases, que não fugiram do Pátio do Colégio, como foi mencionado no jornal Cidadão, mas saíram revoltados com os brancos que queriam escravizá-los. “Os índios perceberam que os portugueses queriam mandar neles, e índio só recebe ordem do cacique. Revoltados, foram falar com o cacique Piquerobi que iam voltar para Ururaí – antigo nome do bairro –, mesmo se ele não quisesse”, diz. O êxodo de parte da tribo para a região deu origem ao atual bairro de São Miguel Paulista. Jesuíno ainda lembra que a relação dos índios com os brancos em outros tempos era boa. Tanto que o Piquerobi, líder dos guaianases, deu sua filha Antônia em casamento para João Ramalho, que Braga define como tronco da família dos paulistas.

Essas são apenas algumas das lembranças de Jesuíno Braga, o homem que se tornou um guardião da memória de São Miguel Paulista. Na carta, que escreveu à equipe do Cidadão, expôs, com respeito, algumas dessas recordações. “Queridos alunos de jornalismo da Unicsul, parabéns por lembrar a história do meu querido bairro. Tenho muito a contar. Estou cansado e cansando vocês, vou parar. A história de São Miguel é fascinante e cheia de dores e desrespeito aos nossos antepassados guaianases e contemporâneos”, finaliza o documento.

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