Trabalhadores invisíveis

Arte: Desiree Palmen

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Em 1994, o estudante do 2º ano de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Braga ficou invisível. Calma, ele não é nenhum mutante ou extraterrestre! Tornou-se invisível ao se vestir de gari na Cidade Universitária. Devido a um estágio de uma disciplina do seu curso, Braga decidiu acompanhar, de duas a três vezes por semana, o trabalho desses profissionais no campus da USP.

Ele esperava causar espanto em todos que o conheciam, como professores, colegas de classes e conhecidos. Porém, grande foi a sua surpresa ao perceber que as pessoas não davam nem bom dia para ele. ‘Atravessei o andar térreo da Psicologia de ponta a ponta. Estava atento, buscava a expressão de surpresa em alguém. Mas nada acontecia’, contou em entrevista a revista ‘Época’. Professores e colegas que passaram a manhã com ele, sequer o olharam. Ele não foi menosprezado ou ignorado, pior, ele nem foi visto.

Braga nunca esqueceu a sensação de se sentir invisível. Durante nove anos, trabalhou com os garis da Universidade e transformou a experiência em tese de mestrado, com o tema “Invisibilidade pública – o desaparecimento de um homem no meio de outros homens”. Concluída em 2002, a tese virou livro.

Todos nós já nos sentimos invisíveis em algum momento, seja na escola, em um novo emprego, lugares onde você se sente sozinho, em situações passageiras de nossas vidas. Entretanto, o estudo de Braga fala sobre uma invisibilidade automatizada que nem nós e muitas vezes nem o ser invisível percebe.

E se repararmos isso é verdade, de fato só sentimos falta dos garis da nossa cidade quando as ruas estão sujas. O porteiro do nosso prédio só serve para entregar as cartas e abrir o portão da garagem. O garçom mais parece uma máquina de trazer comida, do que um ser humano. Tratamos ascensoristas de elevadores como robôs, como se dizer um bom dia fosse causar alguma dor. A presença da empregada doméstica é menos notada do que a do cachorro da família, além de muitas vezes os patrões não saberem nem o sobrenome dela. Ao contrário dos médicos, policias e bombeiros, o uso dos uniformes nessas profissões funciona como uma surreal “capa da invisibilidade”. Ao colocá-la, pessoas comuns se tornam NADA, são tratados como objetos insignificantes em uma sociedade mesquinha e egoísta.

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2 Comentários »

  1. Júlia Zinneck Poça D' Água Said:

    Estava procurando na internet, imagens que pudessem inspirar meu trabalho de faculdade sobre São Paulo invisível. Achei essa “matéria” muito interessante e aproveitar pra dizer, que hoje as pessoas não olham para nada.

  2. […] de exclusão social é quando não enxergamos o outro, são os chamados trabalhadores invisíveis (https://felipegodoy.wordpress.com/2009/06/08/trabalhadores-invisiveis/) e, muitas vezes passamos por eles e nem damos bom dia. Essa vale uma boa reflexão e uma mudança […]


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