Especial 28º Bienal de São Paulo: O NADA DISSE TUDO

sany2031

O segundo andar vazio da 28ª Bienal de São Paulo, resume tudo o que o evento representou. Nunca fui, mas sempre ouvi falar da Bienal. Sabia que era grandiosa e que era uma forma democrática de trazer a arte para o povo, porém era impossível sair do evento sem a decepção estampada no rosto.

Fiquei imaginando os moradores do bairro onde moro, na zona leste de São Paulo, na exposição: O que eles entenderiam daquelas obras? O que eles levariam de relevante? Como aquilo ficaria marcado para cada um deles? Depois de tanto pensar cheguei na resposta: NADA! O mesmo nada que se sobressaia no segundo andar do edifício. Ao invés de trazer a arte para o povo, os organizadores a afastaram mais e mais.

Lembrei do sociólogo francês Edgar Morin. Em seu livro “Cultura de massa no século XX”, ele questiona: “O que existia antes da cultura de massa? Holderlin, Novalis, Rimbaud, eram eles reconhecidos enquanto vivos? O conformismo burguês, a mediocridade arrogante não reinavam nas letras e nas artes?”. Acredito que se Morin tivesse visitado a 28ª Bienal de São Paulo, ele diria: A elite burguesa continua reinando na arte.

O evento foi MUDO. Isso mesmo, MUDO. As pessoas que não podem falar se comunicam entre si e com quem as rodeiam através de sinais próprios, que só quem os conhecem entende. E assim foi a 28ª Bienal. Somente aqueles que vivem longe, num mundo só deles, em uma elite cultural mesquinha, levaram alguma coisa de lá.

Marcuse respondeu Adorno dizendo que é possível fazer arte depois de Auschwitz, desde de que ela seja revolucionária, e que denuncie uma sociedade unidimensional e leve aos receptores novos valores. O que essa Bienal trouxe de relevante para sociedade? O que ela trouxe de revolucionário e de novo? Novamente o andar vazio responde: NADA.

O trabalho A bondade de estranhos do brasileiro Maurício Ianês, foi uma das poucas atrações da Bienal. Talvez pelo fato de ter chegado nu e ao longo do tempo ter ganhado roupas, comida, dinheiro, entre outras bugigangas, ou talvez pelo fato de ter sido exposto pela mídia brasileira. Entendi que o artista queria transmitir a idéia de solidariedade. Mas é muito fácil você ser solidário dentro de uma exposição ou um museu. E como fica a solidariedade ao passar em um dos tantos faróis da cidade, e ao avistar o flanelinha se aproximando, o vidro do automóvel é rapidamente fechado ? Porém para a elite cultural mesquinha que me refiro, a solidariedade se resume entre eles.

Confesso que enquanto andava entre as colunas monumentais de Oscar Niemeyer, me deu um intenso desejo de ver os quadros de Tarsila do Amaral, do Di Cavalcanti e apreciar uma escultura de Victor Brecheret. Pode ser uma arte distante, como alguns artistas contemporâneos definem, porém seria mais gratificante e emocionante. Por que de alguma maneira eu sei que me identificaria com aquilo. Afinal desde a minha infância sempre ouvi falar dos grandes artistas modernistas brasileiros.

O fracasso desta edição da Bienal, pode ser considerado como uma denúncia. Os artistas ainda vivem em um mundo fechado, só deles, e não vêem o que acontece no lado de fora de seus ateliês e de suas casas. Essa distância entre emissor e receptor, afasta cada vez mais a arte das pessoas comuns da sociedade. Isso explica o sucesso do tobogã instalado no exterior da Bienal pelo artista Carsten Höller. Ele foi o único que criou um elo entre a obra e o público.

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