Uma manhã na Linha F

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8h 10, manhã de sábado, céu acinzentado, estação Manoel Feio, Itaquaquecetuba, grande São Paulo. Os passageiros chegam um a um, para embarcar no trem que tem como destino o tradicional bairro paulistano do Brás. Sento em um antigo banco de madeira pintado de azul. Ao meu lado, uma moça morena com fones nos ouvidos observa os transeuntes, no banco de trás, duas mulheres e um homem com olhares dispersos aguardam a chegada do trem. Cinco minutos é o tempo em que espero até o trem parar na plataforma. Entro no segundo vagão, e começo a minha viagem pela linha F da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

 Apesar de proibido o comércio ambulante começa ao fechar as portas. Um rapaz com uma deficiência na mão direita vende presilhas de cabelo: “Olha as presilhas TIC TAC. Três por um real. Lá fora você paga cinquenta centavos em cada presilha. Aqui na minha mão é só três por um real”. Uma senhora aparentando ter cinquenta e cinco anos, cruza os três vagões intercalados vendendo balas. Ao meu lado direito, um casal se abraça e brincam um com o outro. No esquerdo, uma família composta por pai, mãe e filho comentam sobre cada estação que passamos:

– Olha como tá ficando bonita. Logo tá pronta. Comenta o pai, ao passarmos pela futura estação Jardim Romano.

 A linha atravessa um processo de modernização. Além da construção de novas paradas, estações já existentes são reformadas. Segundo a CPTM, até o final de 2010 mais de R$ 1,2 bilhão será investido no trecho da rede metropolitana definida entre as estações Brás – Calmon Viana (Poá).

Inaugurada há setenta e quatro anos, a linha F, que foi rebatizada neste mês como linha 12- Safira, oferece serviços para bairros antes considerados rurais ao sul do rio Tietê. Ao passar dos anos, esses bairros cresceram, abrigando um população de baixa renda, o que foi determinante para ser rotulada pelos paulistanos como “a linha mais problemática de trens metropolitanos em São Paulo”.

Ao chegarmos na estação Itaim Paulista, um grande número de pessoas entram no vagão. Uma moça cede seu lugar para uma senhora idosa. Um jovem senta no chão encostando-se na porta. Na parede, os dizeres: “ Esse é o 13° trem reformado entregue na linha F”.

Alguns aproveitam esse momento para sua leitura diária. À minha frente, uma jovem loira, com olhos castanhos claros lê o livro “Os princípios do sucesso”; outra, vestida de jeans e blusa azul, lê uma das tantas obras de Paulo Coelho. Muitos conversam, uns dormem, outros observam a paisagem. O rapaz ao meu lado tenta ver o que tanto escrevo, porém disfarça ao ver que percebo. Passamos por São Miguel, Comendador Ermelino até chegarmos na nova estação USP Leste. Mesmo depois de dois meses da sua inauguração, os passageiros ainda se espantam com sua arquitetura contemporânea e agradável. O parque Ecológico do Tietê também chama a atenção pela imensa área verde. Pela última vez vejo rosto por rosto daquelas pessoas. Escuto a voz do condutor:

 -“Estação Tatuapé desembarque pelo lado direito do trem”.

 É aqui que fico. Desço e observo aquela enorme máquina se distanciar. Junto com ela pessoas seguem seus caminhos no mesmo vagão, porém suas vidas em trilhos diferentes.

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