A mais famosa de todas as marquises

marquise1 Não passava das oito e meia da manhã. O sol tímido, ainda não irradiava sua luz com intensidade. Sentado na beira do Jardim das Esculturas, em frente à redoma de vidro que abriga a gigantesca aranha de bronze de Louise Bourgeois, retiro da mochila o clássico de George Orwell, “1984”. Ainda estou na parte que Wintson começa a escrever suas idéias sobre a política do Grande Irmão. É uma ótima opção de leitura. Entretanto, não consigo sequer trocar de página. Fico imaginando tudo o que essa enorme laje de concreto já presenciou. A Marquise Senador José Ermírio de Moraes fica no Parque do Ibirapuera , e lá está desde a criação do espaço. A obra foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer em comemoração ao quarto centenário da cidade de São Paulo. E está localizada em frente o Museu de Arte Moderna da cidade, o MAM.

Os camelôs terminam de montar suas bancas, que estão amparadas nas espessas colunas da marquise. De repente, vejo uma senhora gritando em direção a um deles. Ela não falava português, o que era notório devido sua pronúncia nada peculiar. Queria comprar um pacote de biscoitos salgados por um real. Atencioso, o vendedor entregou-lhe instantaneamente o produto com uma das mãos e recebeu o dinheiro com a outra. “Gracias”, respondeu a senhora. Que por sinal usava um notável chapelão. Alguns minutos depois, uma jovem que transportava no bagageiro de sua bicicleta uma imensa pedra de gelo, pergunta ao mesmo vendedor: “Vai gelo hoje?” Ele aceita, e com a ajuda de um guri ela retira a enorme pedra do bagageiro, jogando-a na caixa de isopor.

Na minha frente, um grupo de quatro mulheres ouve e executa atentamente as ordens da “personal trainer”. Três homens chegam. Suas camisas molhadas de suor comprovam que a corrida foi longa. “Até que vieram em um ritmo bom”, disse a personal em direção aos três. Um pouco ao lado um outro grupo faz seus exercícios na esteira, flexões e abdominais ritmadas que os envolvem.

Observo que outro vendedor de gelo pára perto do camelô e protesta: “É só a mocinha vim mais cedo que você não compra comigo”, sem saber o que dizer, o ambulante balança os ombros calado.

Um pequeno grupo começa a surgir ao meu lado. São fotógrafos que aguardam os modelos para produção de um ensaio fotográfico, que vão chegando um a um. O primeiro modelo é moreno, rechonchudo e é dotado com belos olhos castanhos. A segunda é uma linda mocinha de cabelos aloirados. E a última, é uma oriental com olhos cintilantes. A única coisa em comum entre os três, era que, nenhum deles tinham mais do que dois anos de idade. Todos reunidos? Não! Faltava a estrela do ensaio, a Paty, uma enorme São Bernado que pesava mais de sessenta quilos e que era maior do que a sua dona. Com dois laços escarlates na cabeça , ela desfilava como se estivesse em uma passarela, chamando a atenção de todos com sua beleza. Impaciente, Paty andava de um lado para o outro reconhecendo o território. Até que ela se aproximou e ficou ao meu lado, como estava sentado deu para sentir sua respiração cadenciada bater no meu rosto. Uma sensação indescritível.

“Ô da bicicleta! Tem criança aqui.” Berrou um homem a um menino que pedalava em alta velocidade. Só aí que percebi que a marquise estava dominada de ciclista de todas as idades, velhos, crianças, jovens e adultos. Me perguntei onde estavam os atletas de final de semana que há instantes realizavam seus exercícios? Lembrei. É sábado, e como todo final de semana o Ibirapuera torna-se quintal de vários paulistanos, o espaço fica disputado.

Notei que um pouco mais adiante um professor ensinava a suas mais novas alunas como ficar em pé com os patins. Eram duas menininhas que se apoiavam uma a outra para se equilibrar. Não deveriam ter mais do que cinco anos. “Isso meninas, como pingüim”, incentivava o professor.

Niemeyer sempre foi defensor de uma correção na marquise: “Gostaria que parte dela fosse suprimida, dando-lhe uma forma arquitetônica mais bonita”, comentou certa vez. Não sou arquiteto, não posso discordar da opinião de um dos homens mais célebres que esse país já viu. Só sei que, bonita ou não, a marquise é como São Paulo, multicultural e amada por todos que a conhece.

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